Por: Alberto Souto de Miranda

A revitalização da Avenida Lourenço Peixinho: notas para uma estratégia e um programa

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A Avenida Lourenço Peixinho está moribunda. Urge uma operação de reabilitação integrada, que lhe devolva a vida que tem vindo a perder.

1. As bruscas mudanças na estrutura do comércio
Primeiro foi a invasão dos serviços (em especial os bancários), com a imolação de cafés/instituições como o Arcada, o Avenida, o Trianon, etc. Depois, foi o progressivo esvaziamento das habitações, com os jovens e menos jovens casais a afastarem-se para ofertas menos centrais e mais confortáveis. Enfim, a chegada das grandes superfícies comerciais constitui uma ameaça letal num certo tipo de vivência.

O resultado é que uma das mais bonitas avenidas do País está desfigurada, transformada num espaço de atravessamento automóvel pouco aprazível, urbanisticamente desarticulado, desfeado e comercialmente nada atractivo. Importa reagir.

É claro que – embora isso não tenha sido sempre compreendido – a emergência do grande comércio era irreversível e necessária para Aveiro. E, realmente, assistimos, nos dois mandatos autárquicos anteriores, à chegada do Jumbo/ Glicínias, do Carrefour e médias superfícies associadas, do Fórum, do Retail Park, do Lidl, etc. Foi um período muito curto e comercialmente ciclónico, que testemunhou uma profunda mudança de paradigma no pequeno comércio aveirense. As feridas eram inevitáveis. A procura não podia ter tanta elasticidade que permitisse o pequeno comércio resistir como até então: muitos sucumbiram, outros vão sobrevivendo, poucos puderam adaptar-se.

Neste contexto (a que se junta uma persistente redução do poder de compra das famílias e uma oferta acrescida de novos centros comerciais em cidades concorrentes, como Coimbra, Viseu e Porto e de ofertas comerciais na Internet), a Avenida Lourenço Peixinho não pode ombrear com o Fórum Aveiro. Não pode, se se mantiver o marasmo. É preciso que o poder público intervenha.

2. A solução para a Avenida: planeamento estratégico, projecto urbanístico de excelência, integração de políticas públicas

2.1. Um conceito estratégico
(a) Os eixos marcantes
Em primeiro lugar importa saber planear estrategicamente: Aveiro no seu centro urbano tem dois eixos comerciais marcantes: (a) o que vem do Rossio/Praça do Peixe, passando pelas Pontes e segue pelo Fórum, até à nova zona comercial que deverá aparecer junto ao Lago da Fonte Nova, em linha com os canais; (b) o que vem das Pontes, definido pela Avenida, até à Estação, até à nova zona comercial que também ali deverá aparecer.

Estes eixos principais cruzam-se com o eixo menor dado pela Rua Direita/Arcos e podem ser “amarrados” entre si pelos pólos da Alberto Souto/Rotunda do Oita/ManuelFirmino/nova frente do canal do Côjo.

(b) Uma zona comercial de excelência
Para além desta percepção urbanística - que importa perceber para valorizar - do que é o casco comercial tradicional do centro de Aveiro, o planeamento estratégico de salvação da Avenida obriga à sua afirmação como o “Centro” Comercial de Aveiro: um espaço de encontro e zona comercial de excelência. Leia-se: uma zona onde seja agradável ir e estar, para encontrar os outros, uma zona onde valha a pena ir às compras e onde valha a pena vender, não só porque a oferta é de qualidade e personalizada e diversificada, mas porque as pessoas aí afluem com facilidade e vontade. Nada disto se passa actualmente.

Ir à Avenida Lourenço Peixinho tem de voltar a ser um prazer e, aí comprar, tem de ser sinónimo de se ter comprado no sítio onde a oferta é a melhor. A Avenida tem de voltar a estar “in”. O que não tem nada de elitista. O Mercado Manuel Firmino e o Mercado do Peixe também têm de saber estar “in”.

2.2. Um programa de requalificação urbana

Requalificar a Avenida é uma operação muito sensível e de enorme responsabilidade. Aveiro tem de ser muito criterioso e exigente nesse exercício. Não basta sequer rendermo-nos aos resultados de um qualquer concurso público de concepção. Recordo-me que no mandato autárquico anterior ele chegou a ser feito e os resultados não corresponderam às expectativas. É preciso saber o que se quer e não nos conformarmos com soluçõezinhas medianas ou estapafúrdias.

Do meu ponto de vista há algumas ideias força que devem ser condicionantes. Assim: (a) manutenção do trânsito automóvel. As propostas de pedonalização total destroem a Avenida enquanto tal, a sua identidade, o seu conceito histórico e agravam mais os problemas comerciais e de acessos. Escalas à parte, seria como que pedonalizar a Avenida da Liberdade ou os Campos Elísios. É uma heresia excessiva. O trânsito deve manter-se, mas será uma função acessória e condicionada, com um tipologia de piso e largura que o torne lento, e maxime o alargamento dos passeios.
(b) Criação de condições para o aumento da qualidade da fruição pedonal, designadamente, através de, pelo menos, a duplicação da área dos passeios laterais, a criação de passadeiras francas de circulação entre os dois lados e a instalação de esplanadas de qualidade. Os passeios actuais deverão transformar-se em largas e aprazíveis calçadas à portuguesa, com temas desenhados por artistas portugueses convidados. Um espaço de referência.
(c) Manutenção e reconstrução da marcação clássica dada pelas árvores originais, com valorização da placa central para as pistas de Bugas, para a estatuária existente e para nova estatuária de valia internacional.
(d) Redução drástica, senão total, do estacionamento de superfície. A duplicação dos passeios (até à entrada do túnel) é necessária para valorizar a relação com as frentes comerciais, mas implica a supressão de algumas dezenas de lugares. Ao contrário do que possa aparentar, não se trata de uma intervenção dramática: já hoje apenas existem umas dezenas de lugares de estacionamento.
(e) Criação de oferta de estacionamento de proximidade, que deve ser maximizado a partir do terreno contíguo à “rotunda do Oita”, com saídas directas para a Avenida, sem esquecer o parque silo já existente no edifício Ana Vieira, o Parque do Fórum, e o Parque do Manuel Firmino. A solução de um novo Parque subterrâneo, não deve ser excluída liminarmente, mas tudo depende de uma análise custo urbanístico/benefício funcional, que deverá ser efectuada na comparação com outras alternativas e, em todo o caso, sempre minuciosamente escrutinada ao nível do projecto (locais de entradas e saídas, viabilidade de manutenção das árvores, etc).
(f) Salvaguarda da possibilidade futura de circulação do eléctrico de superfície – como aliás o túnel já previu.
(g) Substituição e uniformização de todo o mobiliário urbano e iluminação pública.
(h) Manutenção e regularização do piso de paralelipípedo clássico em toda a extensão.
(i) Regras estritas sobre publicidades, cartazes, toldos, acessibilidade de pessoas com necessidades especiais, cargas e descargas.

2.3. Um programa interdisciplinar
A revitalização da Avenida passa também por uma integração de várias políticas públicas. Um bom projecto urbanístico de intervenção no espaço público soçobrará, se não for acompanhado de outras dinâmicas:

Assim: (a) Política de mobilidade adequada (oferta de estacionamentos de proximidade efectiva, uma rede de transporte colectivos amigável, quando não mesmo um circuito de transporte público dedicado).
(b) Promoção turística (designadamente por ocasião de congressos) e promoção de espaços hoteleiros e de restauração.
(c) Animação de rua apropriada e fomento de tempos de convivencialidade cívica.
(d) Política de marca (sacos, embrulhos, publicidade sob a mesma marca englobante da Avenida).
(e) Política activa de gestão urbanística que induza a resolução de impasses, crie expectativas fundadas e potencie os investidores a apostarem nesse novo centro comercial a céu aberto.
(f) Definições claras ao nível de planeamento sobre volumetrias e usos e imposição de usos mistos (comércio, serviços e habitação) numa abordagem de quarteirão, de modo a que morar na Avenida torne a ser um desejo – pela qualidade de vida - e uma possibilidade – pela oferta diversificada.
(g) Indução de canais de comunicação atractivos entre o Fórum e o Pólo da Fonte Nova com a Avenida, de modo a que este centro possa ser sentido com um todo de qualidade e vivência homogéneas. Neste aspecto, equipamentos como a Capitania, a biblioteca, os Armazéns de Aveiro, o edifício do saudoso Teatro Avenida, as traseiras da Avenida /nova frente para o canal do Côjo do o decrépito Oita, a Fundação António Pascoal, a nova dinâmica que pode ser criada na velha estação da CP, o mercado Manuel Firmino e a Casa da Juventude, podem desempenhar uma importante função agregadora. E há projectos estagnados que podem ser importantes: a ligação da galeria da Alberto Souto à Lourenço Peixinho, o edifício do antigo Centro de Saúde, o da antiga Garagem Atlântico, etc…

3.Financiamento e modelo de gestão
Uma intervenção assim tem um orçamento significativo. Mas mais significativo por omissão é não ter um orçamento. Os fundos disponíveis para a reabilitação urbana devem poder ser utilizados. O problema não me parece que seja o financiamento. O problema é a falta de estratégia. Importa captar fundos consignados à modernização dos estabelecimentos comerciais e à formação profissional.

O comércio deve estar ciente da sua oportunidade e das características do contexto; a oferta deve primar pela qualidade, pela diversidade, pelo atendimento personalizado. Só assim valerá a pena e ganhará sentido uma política de marketing agressiva, que o promova como “centro” comercial com marca de excelência.

Uma intervenção assim só pode ser bem sucedida se tiver um poder autárquico forte, capaz de ganhar os agentes envolvidos e de induzir confiança na sua capacidade de realização para um projecto exigente como este. Uma Câmara bem estruturada e liderada pode fazê-lo. Propendo no entanto a pensar que, nas condições actuais, o modelo Pólis – com provas dadas – é o que melhor se adequa à sensibilidade desta intervenção. Reunindo competências especialmente dedicadas e uma equipa profissional que consiga consensualizar um projecto de grande qualidade e executá-lo com rigor.

A Associação Comercial de Aveiro pode ter uma importante papel de catalizador de vontades e de meios. Não duvido que o possa fazer. Esperemos todos que a Câmara Municipal esteja ciente da urgência e à altura das suas responsabilidades. Quando se aproximam as comemorações dos 250 anos da cidade, a Avenida que mais cidade fez e que tanta cidadania formou, merece estar remoçada, à altura do espírito visionário de LourençoPeixinho.

Aveiro, 14 de Setembro de 2008