Café Pingão

«O cliente é a minha vida»

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O restaurante tem 30 anos. Como surgiu este negócio?
A ideia de criar este negócio foi muito simples e, ao mesmo tempo, muito complicada. Isto porque tudo aconteceu após termos regressado do Ultramar, onde morávamos e onde o meu marido fez a tropa. Nós viemos sem nada. Cheguei a Aveiro com 750 escudos no bolso e uma filha para criar.

Não foi fácil…
Não e tanto eu como o meu marido tivemos que ir à luta. Após um período a morar em casa dos meus pais, o meu marido – como em África era empregado de bar, que tinha o mesmo nome que posteriormente demos ao nosso estabelecimento – arranjou trabalho no ex-Bolinão.

E como surgiu o negócio?
Apareceram três amigos, que também eram retornados, e pensaram em montar um negócio de restaurante. Um tinha um minimercado, outro era empregado num banco, o terceiro elemento era meu cunhado e o quarto o meu marido. Os quatro criaram a sociedade Delgado, Silva e Sequeiras Lda.

Quais foram as maiores dificuldades?
O financiamento foi complicado, porque não havia dinheiro e os juros naquele tempo eram muito altos.

Foi um processo difícil…
Muito difícil. Há 30 anos atrás, este edifício, onde estamos, era uma boa casa. Consegui aproveitar a oportunidade que me deram. Depois, um dos sócios teve que se ausentar, por motivos profissionais, outro optou por ficar com o negócio que já tinha, e o meu cunhado vendeu a quota dele ao meu marido. Após este processo, decidimos que a sociedade comercial seria apenas entre mim e ele. Apesar do receio, decidimos ir em frente, porque tínhamos muitos clientes. Foi duro. Investi aqui tudo o que tinha, mas com o tempo consegui pagar tudo o que devia. Entretanto, o marido adoece e eu fico responsável pelo restaurante sozinha. Depois, começam a furar o túnel.

O viaduto por baixo da estação.
Exacto. As obras estragaram o negócio e foram três anos de sofrimento.

Agora com a obra concluída, tudo está ultrapassado…
Agora, o negócio foi retomado, mas já não há a mesma afluência de antigamente. A concorrência também é muita e começámos a saldar as refeições.

Como reage à concorrência?
A princípio enervava-me, porque não temos lucro suficiente para fazer preços tão baixos como os que são actualmente praticados. Por outro lado, o facto das pastelarias servirem almoços foi uma grande asneira, porque não se devem misturar sobremesas com refeições.

No final destes anos, está triste?
Não estou triste, porque nasci para isto e o cliente é a minha vida. Vivo com o cliente. Um simples bolo de bacalhau que o cliente come tem que passar pela minha mão, para ter a garantia de que come qualidade e comida saudável. Se eu não me tivesse interessado tanto por isto, teria vivido mais a minha vida. Pelo contrário, vivi para estar aqui dentro. Isto porque eu tinha pedido a Deus que me desse em negócio que eu conseguisse ganhar o suficiente para me alimentar a mim e aos meus e isso, de facto, aconteceu. Por meu turno, prometi entregar-me ao trabalho e o preço que paguei foi nunca ter tido férias nem ter saído para lado algum.

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B.I.

Nome: Rosa Sequeira
Idade: 59 anos
Estado civil: casada
Sector de actividade: restauração
Família: uma filha e uma neta
Defeito: Sou muito teimosa
Virtude: Ser boa para o próximo
Prato favorito: bacalhau cozido com grão
Música: música portuguesa, principalmente fados
Sonho: tinha o sonho de ser enfermeira diplomada, mas agora sonho continuar com o meu negócio e, se pudesse, gostava de acabar os meus dias a trabalhar

Entrevista publicada em 24/10/07

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