Mesmo antes da fundação do próprio país, a exploração do sal era já uma actividade comum não só em Aveiro, como noutros pontos do país, tal como na Figueira da Foz, Alcochete, Alcácer do Sal, Tavira, Olhão e Castro Marim. Contudo, com o passar dos séculos, o dinamismo desta actividade, em Aveiro, tem-se vindo a perder, o que se comprova na redução do número de salinas e de marnotos em activo, bem como na quantidade de sal comercializado.
De acordo com um estudo de mercado realizado pela MultiAveiro, designado «Revitalização e Valorização Económica do Salgado de Aveiro», no panorama nacional, «a produção de sal marinho distribui-se por três regiões: Centro, Lisboa e Vale do Tejo; e Algarve, representando esta última, em 2005, aproximadamente, 90 por cento da produção nacional». Já na zona Centro, responsável por quatro por cento do total nacional, a produção distribui-se por dois locais – Aveiro e Figueira da Foz – «com um ligeiro predomínio da Figueira», refere o estudo. Vendo o seu peso relativo decrescer, de forma contínua, na produção total nacional, o salgado aveirense representava, em 2005, aproximadamente dois por cento do total registado no país.
Entre as razões para o declínio do sal aveirense, foram apontadas a descida do preço sal, a falta de pagamento do sal vendido ou entregue, a concorrência do sal estrangeiro, o monopólio dos armazenistas e a concorrência do sal de mina.
Medidas a tomar
Face ao conjunto de factores que levaram à desfavorável situação, as opiniões quanto às medidas a tomar dividem-se entre os vários intervenientes. Os proprietários de marinhas indicam diferentes soluções: subsidiar a produção do sal artesanal, nomeadamente no que concerne à reconstrução de motas; criar (nova) rede de distribuição de produção; respeitar e discriminar, nas embalagens, a origem geográfica do sal; agrupar as marinhas por utilização dada (sal, peixes ou turismo).
Na opinião dos marnotos, as soluções deveriam passar pela limitação da entrada de sal estrangeiro; constituição de uma cooperativa eficaz ou redinamizar a existente; melhorar o acesso às marinhas; certificar o sal; possibilitar a venda directa do sal pelos produtores; sensibilizar os consumidores acerca da qualidade do sal local. A necessidade de «unir esforços dos vários actores com responsabilidades nesta matéria» é sugerida por interlocutores mais conhecedores, explícita o estudo de mercado. Nessa linha de pensamento, é considerada importante a «implementação do Ecomuseu da Marinha da Troncalhada»; a «articulação crescente entre a Câmara Municipal de Aveiro e a Universidade de Aveiro»; a «promoção de passeios na ria, por parte de operadores privados», como propulsora do turismo da região; o «reconhecimento da necessidade de proceder à certificação do sal e flor de sal aveirenses, enquanto factor potenciador da viabilidade económica do sector».
Papel «na imagem e cultura aveirenses»,
Ao mesmo tempo que «a dureza do trabalho nas salinas, associada aos decrescentes dividendos dele retirados, tem conduzido ao progressivo abandono desta actividade, assiste-se a uma crescente tomada de consciência da sua importância e, consequentemente, necessidade de a revitalizar», conclui a investigação realizada.
Em Aveiro, a actividade salícola continua a ser reconhecida, por diversos motivos. O estudo levado a cabo pela MultiAveiro apurou que as salinas desempenham um indubitável papel «na imagem e cultura aveirenses», sendo o sal, frequentemente, apontado como o ex-libris da cidade, associando-se a uma «identidade colectiva, que deteve, no passado, um papel significativo na economia local e que, actualmente, apesar do seu declínio, encerra diversas potencialidades, nomeadamente no sector turístico e actividades correlacionadas, as quais terão consequências, directas e indirectas, noutros sectores de actividade».
Os famosos montes de sal acabam por conferir uma «singularidade paisagística» à cidade, constituindo-se, de acordo com inquéritos realizados no âmbito do estudo de mercado, como «o terceiro ponto turístico mais visitado pelos turistas/excursionistas da cidade, logo a seguir à ria e à praia». A investigação averiguou, ainda, que «as salinas, apesar de não parecerem ser o motivo para a deslocação à cidade, acabam por ser reconhecidas e bastante visitadas, o que reforça as suas potencialidades, para a exploração turística».
Além de ser reconhecido como um elemento diferenciador para o turismo concelhio, «a exploração de sal tem reflexos inevitáveis na paisagem e ordenamento do território», assegura o estudo de mercado. A manutenção das infra-estruturas associadas a esta actividade são essenciais para estabilizar os níveis de água nos canais da cidade, evitando a erosão e outras consequências. Por outro lado, a subida das cotas da água dificultaria a proliferação de várias espécies aquáticas e a reprodução e alimentação das aves (mais de 20 mil), que têm as marinhas como habitat. O «vasto e complexo ecossistema lagunar», reveste-se, assim, de uma extrema importância para o ambiente envolvente, assumindo, também, o importante papel de purificação do ar, «constituindo-se como pulmão da cidade».
Locais de produção, em 2006
O estudo realizado pela MultiAveiro revela que, no ano transacto, a produção do sal no concelho de Aveiro encontrava-se confinada a dez marinhas, com 12 marnotos no activo (com idade média de 54 anos – o mais novo com 39 anos e o mais idoso com 76) e cinco inactivos (devido à idade avançada e/ou condição física).