Sexta-feira, dia 12 Abril l 21.45 Horas l Sala Principal
Ana Bustorff volta à Companhia de Teatro de Braga para uma grande performance. Um texto único para uma actriz única. Um espectáculo construído em partitura de silêncios. O teatro já passou e a Vida é vivida tal qual é.

Há ecos e silêncios que a Vida produz: são a música do tempo e do lugar. Habitamos e vivemos, cada vez mais, um mundo que é só nosso. Livres e prisioneiros das nossas cabeças. Agimos. Organizamos e reorganizamos um Caos. Reconstituimo-nos no Silêncio. Depois de BACANTES e antes de PESAR, a CTB continua na pista de um “théàtre de femmes”, como lhe chamou Kroetz.
Para o seu centésimo espectáculo a Companhia de Teatro de Braga decidiu voltar a um texto do realismo alemão. Agora sem pretensão de mudar o Mundo através do teatro, mas afirmando, no contexto da criação artística, a posição da Companhia de não abdicar de ver e dar testemunho da Vida que nos rodeia.
Este Concerto “à la Carte” é um olhar frio, concreto, real até aos ossos, da vida vivida por cada vez mais mulheres em cada cidade. É a comédia social ao contrário. Se até aos anos setenta a tese era que o casamento seria uma invenção da burguesia e da classe dirigente para manter a fortuna e o património no seio da família e confiado aos herdeiros. Hoje, essa falsa moral ruiu e sobre a pressão do neoliberalismo, a mulher é cada vez mais colocada entre o mercado da precariedade generalizada, com retorno à ideologia do casamento numa perspectiva de sobrevivência económica. Uma moral modernizada.
Mas a realidade é cada dia mais cruel, depois dos preconceitos da dominação masculina, temos dois mercados cada vez mais competitivos: o do trabalho e o do casamento. E a mulher cada dia mais só. Por opção, dolorosa, por abandono, por razões a cada passo mais fortes e dramáticas.
Há cada vez mais a Rua como espaço de espectáculo da dignidade que se quer manter e a casa, o dentro de casa, o interior, como espaço prisão que garante a Liberdade para que nos possamos despir dessa farda social. E aí, nesse “teatro” a solidão, a crueldade da vida, torna-nos fantoches de nós mesmos.
Mesquinhos e miseráveis. Inúteis e indiferenciados. Somos afinal aquilo que o neo-liberalismo quis fazer de nós: números, cabeças enredadas numa única luta: a sobrevivência a qualquer custo. Concerto “à la Carte” é a vidinha duma senhora, igual a tantas que moram no apartamento ao lado, que se cruzam connosco no supermercado, a quem olhamos sem ver e que morrem sem sabermos e sem elas mesmas darem por isso.
Não contam, fazem parte da estatística para a Europa, mas são apenas números.
É de facto uma comédia social ao contrário. É um espectáculo de risco. É um espectáculo de compromisso, de postura artística e ética sobre o nosso tempo. É uma performance de actriz. De uma grande actriz que, mais uma vez escolheu o caminho mais difícil. Afinal o caminho da Companhia de Teatro de Braga. Mas é também uma Homenagem a todas as Mulheres que não são acontecimento.
Ficha Artística:
Concerto “à la Carte”, de Franz Xaver Kroetz, pela Companhia de Teatro de Braga. Tradução Maria Adélia Silva Melo. Encenação Rui Madeira. Interpretação Ana Bustorff. Assistentes de encenação Frederico Bustorff Madeira, Solange Sá. Cenografia Carlos Sampaio. Figurinos Sílvia Alves. Desenho de som Pedro Pinto. Desenho de luz Fred Rompante.