Nas palavras de Capão Filipe, vereador com o pelouro da cultura na Câmara Municipal de Aveiro, o sal era o «ouro branco» de antigamente, assumindo-se como «a actividade económica mais rentável e de maior sucesso na zona de Aveiro». Com a evolução socio-económica, o sal aveirense deixou de exercer tanta influência nesse campo, constituindo, porém, um incontornável factor de interesse turístico e cultural.
«O sal sempre esteve associado à história de Aveiro e as fases mais ricas da cidade tiveram a ver com a produção de sal», afirmou Miguel Capão Filipe, vereador da cultura da Câmara Municipal de Aveiro, explicando que o chamado «ouro branco» foi até importante para a concretização dos descobrimentos portugueses, pois permitia a conservação dos alimentos, durante longos períodos de tempo.
Hoje em dia, a realidade é bem diferente, os frigoríficos vieram substituir o sal na preservação da comida e as salinas de Aveiro, com a perda de rendibilidade, passaram de centenas a meia dúzia, em funcionamento. Além disso, outros factores contribuíram para o declínio da actividade salícola, tal como a evolução da lei da oferta e da procura; a forte concorrência do sal industrial, face aos métodos artesanais aveirenses, que tornam o produto mais caro; e a dureza da profissão do marnoto, que acaba por não ser compensada.
As pirâmides de sal deixaram de ser um elemento assíduo na paisagem aveirense, mas, ainda assim, tornaram-se num ex-líbris da cidade (tal como o barco moliceiro), constituindo um importante factor de interesse turístico. Para isso, foi relevante a intervenção da Câmara Municipal de Aveiro, que há 17 anos criou o Ecomuseu da Marinha da Troncalhada, que se integra, actualmente, na rede «Museu da Cidade», na qual estão integrados, por exemplo, o Museu Etnográfico de Requeixo, a Casa Major Pessoa e os percursos citadinos das casas com fachada Arte Nova.
Além de promover a conservação da memória colectiva dos aveirenses, o Eco-Museu da Marinha da Troncalhada, onde se produz o sal conforme a maneira ancestral, constituiu-se como um ícone no turismo da cidade, sendo essa «uma das áreas económicas a potenciar em Aveiro», revelou o vereador, explicando que é estratégica a «afirmação turística cultural». De acordo com Capão Filipe, interessa que cheguem pessoas a Aveiro que permaneçam na cidade, não por duas horas, mas sim por alguns dias, seja no turismo de «negócios» ou no turismo convencional.
Sal de qualidade
Através da exemplar Marinha da Troncalhada, tanto aveirenses, como turistas, têm a oportunidade de, entre a Primavera e o Outono, ficar a conhecer melhor o sal aveirense e todas as características que o diferenciam de qualquer outro. Assumindo-se como um sal de qualidade, o produto aveirense possuiu um cheiro característico e até os utensílios que são usados para o produzir são únicos. O barco salineiro, semelhante ao moliceiro, era o meio usado para transportar o sal, a partir das salinas. E mesmo a própria definição da arte do marnoto é exclusivamente aveirense, bem como toda as técnicas, tradições e etnografia associada ao mesmo.
Futuramente, o Ecomuseu da Marinha da Troncalhada será enriquecido por um Centro Interpretativo, abrangido pelo Programa Polis, revelou o autarca. Com localização prevista para as proximidades do terminal TIRTIF, este edifício funcionará como casa abrigo do Ecomuseu. Além disso, servirá como local de monitorização ambiental, com o intuito de tornar Aveiro numa cidade atractiva nas questões ambientais, bem como em termos de desenvolvimento sustentável e de qualidade de vida, explicou Capão Filipe. Através desta infra-estrutura, que integrará, também, um auditório, o vereador prevê que o número de visitas continue a crescer, como tem vindo a acontecer, de ano para ano.
Para estabelecer a ligação entre a cidade, a Marinha da Troncalhada e o futuro Centro Interpretativo, a Câmara Municipal de Aveiro prevê a criação de um circuito pedonal, para o qual será construído um passadiço, depois da construção da futura ponte da Lota.
Estas e outras medidas fazem parte de um programa apoiado por fundos comunitários, o «Interreg III B – “Espaço Atlântico”», que tem a finalidade da «salvaguarda do salgado atlântico», revelou Capão Filipe. Nesta iniciativa estão, também, abrangidos outros locais de Portugal onde se produz sal tradicional, bem como Espanha, França, Irlanda e Reino Unido.
Com diversas actividades ainda a decorrer, o programa é levado a cabo por vários intervenientes locais, nacionais e internacionais, entre os quais se encontra a Universidade de Aveiro, que já elaborou um estudo sobre as características do sal de Aveiro, e a Cooperativa Agrícola de Transformadores de Sais Marinhos da Ria de Aveiro.
«Associação de Produtores de Sal de Aveiro»
Neste momento, está, também, em fase de implementação a «Associação de Produtores de Sal de Aveiro», que poderá dar origem a uma federação nacional de produção de sal, que por sua vez conduzirá à agregação numa instituição europeia. O vereador da cultura revela que já foram efectuados «estudos do mercado do sal, adaptados aos tempos actuais», definindo o sal aveirense como «um sal de qualidade e não um sal industrial», que pressupõe a competitividade inultrapassável de outros países, onde o sal existe em maior quantidade e a preços mais baixos, não se apresentando, no entanto, «com a qualidade e diferenciação do sal aveirense», frisou Capão Filipe.
O programa de salvaguarda do salgado atlântico permitirá, de acordo com o responsável, «um trabalho de reconstrução das salinas, de modo a tornarem-se mais operacionais; a comercialização do sal de Aveiro; e o reconhecimento da profissão do marnoto, que até aqui nunca foi feito». O município está a ser, sobretudo, facilitador, acrescentou. A «remar no mesmo sentido» estão a sociedade civil, os proprietários das salinas, bem como os próprios marnotos, assegurou o autarca aveirense.
Estudar o sal, realizar um estudo de mercado adaptado aos dias de hoje, juntar em associação os proprietários das salinas, formar e reconhecer a profissão do marnoto, ampliar o conceito turístico e cultural – são algumas medidas a tomar, que foram apontadas por Capão Filipe.