Defende João Banca, marnoto da Marinha da Troncalhada

«Tem que haver união das entidades mais-valentes»

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Aos dez anos, João Banca herdou o único bem que o seu pai lhe pode oferecer – a sabedoria da profissão de marnoto. Hoje em dia, continua a exercer o mesmo ofício, na Marinha da Troncalhada, mas diz ter pena de não puder passar aos seus filhos o mesmo que o seu progenitor lhe deixou. Certo é que o conhecimento desta arte acabou por ser passado de geração em geração, mas nenhum dos filhos de João Banca escolheu exercer esta profissão.

A vida dura de marnoto e as dificuldades que têm vindo a aumentar levaram a que deixasse de haver «sangue novo» nas salinas, e a que o número de produtores de sal diminuísse drasticamente.

João Banca compara esta profissão a «um paraíso», no entanto, «talvez» seja este o seu «último ano como marnoto», confessa. O desânimo causado pelos problemas com que se defronta e a ausência de um futuro estável para a sua velhice leva-o, aos 49 anos de idade, a pensar em desistir da vida que sempre levou. «Não é por minha livre vontade que vou embora, sou obrigado a deixar a vida de marnoto, porque a situação está muito mal», lamentou.

Como ele, há outros «quatro ou cinco marnotos» a sentir a mesma revolta, que numa das últimas vezes em que se juntaram admitiram já a possibilidade de deixar de fazer sal, durante o próximo ano, não só para escoar os stocks que possuem, mas também para mostrar que «o sal afinal faz falta a Aveiro».

Nas eiras da Marinha da Troncalhada, João Banca possui sal, ainda, de safras de há dois anos, que continua no mesmo lugar, à espera de ser vendido. A forte concorrência do sal industrial levou a que o sal aveirense deixasse de significar a riqueza económica de há alguns anos atrás e, para escoar alguma parte da sua produção, o marnoto vê-se obrigado a vender o sal «ao desbarato».

Falta de soluções
No caso da Marinha da Troncalhada, que se transformou em Eco-Museu, os famosos montes de sal fazem as delícias dos turistas, entre a Primavera e o Outono. Mas o turismo não «remedeia» a situação em que os, já escassos, marnotos se encontram. No entender de João Banca, «nada tem sido feito» para inverter o desfavorável cenário económico das salinas aveirenses. Falta de soluções e de meios, bem como a passividade face ao problema são factores que, segundo o marnoto, deviam ser contrariados.

Na opinião de João Banca, a associação de marnotos, que foi já criada, tem sido ineficaz na sua actuação, não criando soluções para a venda do sal. Por outro lado, a «má gestão da cooperativa de marnotos» não facilita a actividade dos marnotos, acrescentou. «Eu e os outros marnotos temos a sabedoria do trabalho, mas tem de haver pessoas “por trás” que tenham a sabedoria de “despachar” o nosso serviço», frisou. A Câmara Municipal de Aveiro é, segundo o marnoto, a entidade «que mais tem feito», mantendo, pelo menos, o Eco-Museu da Marinha da Troncalhada em funcionamento.

Como solução, João Banca aponta a «junção de esforços» entre as várias entidades competentes, tal como as Câmaras Municipais de Aveiro e Ílhavo, a Universidade de Aveiro, o Governo Civil, a cooperativa de produtores e a associação de marnotos, uma vez que, até aqui, têm estado «cada uma a puxar para seu lado». Viver apenas do bem que as marinhas lhe dão é, segundo João Banca, apenas viável se os marnotos se tornarem funcionários de uma empresa, ou até mesmo da cooperativa, onde o ordenado não estaria totalmente dependente da venda do sal.

«Melhor do que ninguém, nós sabemos como isto está», assegura João Banca, queixando-se da difícil situação que esta dura profissão lhe oferece. Mas, ainda assim, continua a gostar daquilo que faz e acredita, tal como os seus companheiros de trabalho, que a vida como marnoto lhe volte a dar novas alegrias. «Ir embora, só em último remédio», afirmou.

A maior parte dos marnotos, que antes trabalhavam nas salinas aveirenses já há muito que deixou a profissão. Apenas «quatro ou cinco» têm, ainda, a «teimosia» de resistir às dificuldades, havendo outros, porém, que continuam a conviver com este ofício apenas nos seus tempos livres ou como forma de ocupação do tempo, durante a reforma. Por essa razão, existem em Aveiro algumas marinhas a funcionar apenas por metade, tal como a Marinha da Sinitra, contou João Banca.

Marinhas em funcionamento

Em pleno funcionamento, estão, apenas cinco: Grã-Caravela, Troncalhada, Santiago da Fonte, 18 dos Carmonetes e Passã, enumerou o marnoto. Cerca de cinco são, também, os marnotos que se dedicam a tempo inteiro às salinas, queixando-se, contudo que são insuficientes. Para uma exploração a 100 por cento, na Marinha da Troncalhada, seriam necessários, pelo menos, «mais dois homens», refere João Banca. Sozinho, o seu trabalho torna-se ainda mais duro, principalmente no «tempo do sal», no qual, por vezes, tem a ajuda de um dos seus filhos nas várias tarefas, tal como varrer, bulir, colocar água e, se possível, tirar o sal.

Por sua vez, o clima tem, também, que ajudar para que se consiga produzir sal. João Banca refere que neste ano, o «tempo do sal» começou mais tarde, devido às chuvas frequentes, que enchem as marinhas de água doce. «Mesmo que o tempo esteja quente, se chover de 15 em 15 dias, não fazemos uma pedra de sal», explicou. Os últimos dois Invernos, João Banca passou-os, também, na Marinha da Troncalhada, entretendo-se a fazer alfaias para o trabalho no sal, no Verão. Com mais uma safra pela frente, João Banca continua a esperar por dias melhores, com mais apoios, soluções e união.