Nós, portugueses, somos europeus de pleno direito. No espaço europeu, somos geográficamente periféricos. Mas se nos virarmos para o Atlântico, como fizemos no século XV, podemos ser o centro. Enquanto as monarquias europeias se guerreavam entre si, os nossos reis D.João II e D. Manuel I exploravam os mares. E fomos à África, ao Brasil, à Índia e à Oceania. Negociámos com a grande China. Criámos raízes nesses locais. Alimentámos a Europa através do porto de Lisboa com o que trouxemos da África, do Oriente e do Brasil.
Enquanto a Europa se vai organizando para fazer frente às novas economias emergentes, porque não incitar agora os nossos governos a pensar D.João II, a pensar D.Manuel I, a pensar global, a pensar Atlântico? Recordemos os Lusíadas, quando Vasco da Gama descrevia Portugal ao rei de Melinde :
“Eis aqui quase no cimo da cabeça
da Europa toda o Reino Lusitano,
onde a terra se acaba e o mar começa
e onde Febo repousa no oceano”.
De facto, a Península Ibérica é a cabeça da Europa e Portugal é a cara nessa cabeça. E é na cara que está a boca. E é a boca que alimenta o corpo. E a boca são os nossos principais portos marítimos: Sines, Setúbal, Lisboa, Aveiro e Leixões. São postos avançados que a Europa tem no Atlântico. São a boca da Europa metida pelo Atlântico dentro. Mas a boca precisa do tubo digestivo. É preciso acessibilidades ferroviárias, com a capacidade e fluidez compatíveis com a ligação destes portos a Espanha. É preciso pensar no transhiping para as ligações aos outros portos europeus. Será mais económico e evita a barreira dos Pirinéus. Há que pensar nas nossas infra-estruturas portuárias em termos de Estratégia Global. Nesta matéria, nós temos excepcionais condições. É preciso aproveitá-las. Basta pôr a funcionar em pleno os nossos portos do Atlântico. Alimentemos a Europa a partir dos nossos portos. Com os navios com origem e destino no Oriente, na África e na América.
As auto-estradas do mar são um projecto europeu que Portugal tem liderado. As auto-estradas marítimas são ligações regulares pré-determinadas entre portos que, além de pouparem tempo de imobilização e custos no transporte através da redução dos procedimentos administrativos, ainda permitem que a carga seja entregue "à porta" dos clientes, uma vez que podem ser combinadas com transportadores rodoviários. O conceito de auto-estrada do Mar foi estabelecido de acordo com a visão das empresas que necessitam de transportar as suas mercadorias, importadores e exportadores. São serviços porta-a-porta, com uma parte do trajecto feito por mar, caracterizados por uma oferta frequente, com tempos de viagem e preços competitivos face às soluções rodoviárias ou ferroviárias. Nestas linhas, o dono da mercadoria transportada tem a possibilidade de aceder à informação sobre a carga em trânsito, nomeadamente, localização, data prevista para embarque no porto de origem, data prevista para descarga ou ainda a data prevista para a entrega final.
Portugal iniciou negociações com Espanha e França para a criação de uma auto-estrada marítima pelo Norte, ligando o porto de Leixões àqueles dois países. Além desta ligação regular, os maiores portos portugueses estão, ao que consta, a analisar a viabilidade económica e a avaliar potenciais mercados para novas auto-estradas marítimas, que se juntarão às que estão já em funcionamento. Lion Service é o nome do novo serviço regular directo de transporte marítimo de mercadorias entre o Extremo Oriente e Portugal, via Porto de Sines. Os portos de Leixões e Sines parece que têm já estabelecidas duas ligações regulares com congéneres na Holanda, Reino Unido e Itália, mas o objectivo é alargar esta possibilidade aos restantes principais portos comerciais de Portugal continental: Aveiro, Lisboa e Setúbal. Assim, os cinco maiores portos portugueses ficariam todos a funcionar no projecto de auto-estradas marítimas.
A Ordem dos Engenheiros, que representa e simboliza a Engenharia Portuguesa, teve a maior honra de estar ao lado da Administração do Porto de Aveiro nas comemorações dos 200 anos da abertura da barra para o Atlântico. Este acontecimento e o seminário internacional sobre infra-estruturas portuárias, realizado no âmbito dessas celebrações, podem e devem servir para alertar o poder político para o importante recurso estratégico em termos económicos que são os nossos portos no Atlântico. As administrações portuárias portuguesas, na sequência de uma política concertada em que o nosso governo parece empenhado, terão de trabalhar, neste sentido, com as suas congéneres internacionais.
No jogo da estratégia de nível europeu, e mesmo global, não podemos menosprezar estas preciosas infra-estruturas. São os nossos melhores trunfos. Preparemos o futuro com esta estratégia e, então, seremos um país central.