Pedro Ribeiro da Silva há dois anos que tomou as rédeas de condução da Região de Turismo da Rota da Luz. Esteve anteriormente como vereador da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro, foi presidente da Associação dos Planeadores de Território e dirigiu, por mais de vinte anos, o Cineclube de Aveiro.
Vive com paixão os projectos que abraça e por isso não admira que há já seis anos que não goza férias…
Poder-se-ía rotulá-lo como um «viciado no trabalho».
Antes da Rota da Luz?
Estive na Associação dos Planeadores e durante muito tempo no Cineclube de Aveiro.
Falando de Planeadores… Aveiro é uma cidade bem planeada?
Aveiro é uma cidade muito equilibrada e penso que é bem planeada pois não vemos, as aberrações que encontramos noutros locais, como as grande rupturas de edifícios que aparecem como dissonantes daquilo que é o meio urbano… Isto é também produto da sua morfologia urbana, da existência de canais que de alguma maneira torna mais complexa e ao mesmo tempo mais estimulante as ligações entre as várias partes da cidade.
As razões essenciais foram um bom Plano Director Municipal, coordenado pelo Arq. Manuel Fernandes Sá, e o Plano de Urbanização que veio a seguir e, ainda que não estando em vigor, foi uma peça muito boa naquilo que era a gestão quotidiana.
Planear hoje já não é apenas desenhar o espaço público ou espaço edificado… mas sendo Aveiro uma cidade bem planeada, ainda temos muito para caminhar.
O que é que falta a Aveiro?
Puxando um pouco a brasa à minha sardinha, direi que falta os canais da cidade terem uma expressão mais forte, ou seja, o que marca a diferença entre a nossa cidade e todas as outras cidades, com excepção de meia dúzia que também têm esses canais urbanos, é a presença da água no interior da cidade. Esta marca da água, num caminho que estamos a trilhar para dimensões ambientais em meio urbano, estes canais de água são completamente diferenciadores. Temos o exemplo do que foi feito no Canal da Fonte Nova, que era um espaço desvalorizado e que hoje é um espaço belíssimo. A par disto, uma melhor ligação dos canais que permitissem às pessoas chegar à Universidade, ter prolongamento no Cais de S. Roque… é esta dimensão diferenciadora da cidade que nos pode dar aquilo que é uma imagem de marca fortíssima que a cidade já tem mas que ainda pode ter mais.
Os benefícios que apontou foram fruto das intervenções do Polis…
A generalidade das cidades portuguesas tiveram a qualificação muito a partir do Programa Polis, implantado pelo então Ministro do Ambiente e hoje Primeiro-Ministro, José Sócrates. Esse programa veio na continuidade do que foi o Parque Expo, ou seja, um modelo de urbanização e requalificação do espaço urbano que todos reconhecemos hoje no Parque das Nações, depois transferido para o Programa Polis colocado em quase todas as capitais de distrito. Foi uma ajuda preciosa já que as autarquias, com as suas limitações financeiras não teriam capacidade para uma intervenção tão sistematizada e com tanta dimensão. Daí a existência importante de um futuro Programa Polis que eu creio, já está pensado, para dar continuidade àquilo que foram os processos de requalificação.
Nós ainda estamos a caminhar, designadamente na zona da antiga lota onde, mais uma vez, o vector água será valorizado.
Polis na Ria… viável ou utópico?
Da mesma maneira que falamos para os espaços urbanos que carecem de apoios devidamente estruturados por parte da Administração Central, também os meios naturais, ambientais, carecem exactamente desse mesmo apoio, sem o qual também aquilo que é o trabalho das autarquias, e é muito, não tem, sob o ponto de vista financeiro, essas possibilidades. O Programa Polis vem aqui traduzir uma vontade da Administração Central trabalhar com a Administração Local e regional no sentido de resolver os problemas essenciais. E desde logo temos de resolver o problema do assoreamento de uma parte substancial da Ria. Isto pode ser visto como gastos, mas são, de facto, investimentos. Se conseguirmos fazer com que a Ria seja navegável na maior parte da sua área, temos aqui uma dimensão e uma capacidade turística invejável em qualquer parte do mundo. Visitar as cidades a partir do meio aquático é o que muito poucas pessoas podem fazer, e aqui em Aveiro poder-se-à fazer isso.
O Polis XXI, lançado pelo Ministério do Ambiente para a nossa Ria, e também para a Ria Formosa e para o Litoral Esposende-Caminha, trará, de facto, meios essenciais para apoiar aquilo que é a requalificação desses espaços.
Na sua passagem pela Câmara de Aveiro o que é que lhe deu mais prazer?
Sem dúvida que foi o trabalhar com as Associações Culturais. Eu vinha de uma e era, de alguma maneira cúmplice com todos eles, porque ter sido presidente do Cine Clube de Aveiro durante muitos anos… conseguimos agregar com a generalidade das Associações formando o Fórum das Associações Culturais, que culminou com uma exposição municipal. Foi uma componente muito própria para fazer valer aquilo que era o trabalho e as ideias de desenvolvimento para a cultura, no âmbito associativo. Tê-los reencontrado depois, naquele patamar foi um momento muito importante porque tive ali todas as possibilidades de trabalharmos juntos. Criámos o Conselho Municipal de Cultura, relativamente diferente dos outros, em que as associações estavam, todas elas, representadas sectorialmente, por sectores de actividade cultural. Criámos a Agenda 21 para a Cultura, e partimos para aquilo que era o orçamento participado pelas associações culturais para o município. Tudo isto permitiu um envolvimento muito interessante.
Lados positivo e negativo?
Ter percebido que o trabalho das autarquias e dos autarcas, em particular, é um trabalho verdadeiramente hercúleo, verdadeiramente heróico… é muito difícil. São poucas as pessoas para os múltiplos esquemas que é preciso trabalhar. Essa é, talvez, a maior dificuldade. São muitos os temas que cada um tem e é preciso trabalhar com todos. Hoje não se faz política sozinho. É preciso envolvimento e isso impõe muito tempo e muito trabalho. As duas dimensões que se confrontam é fazer ganhar o lado melhor ao lado pior… o lado menos bom é aquele em que são muitas as ideias, mas depois confrontados com um conjunto de dificuldades várias, nomeadamente o do tempo para gerir tudo,
Voltaria à Câmara?
Eu estaria e estarei em todos os sítios onde entendam que eu possa ser importante para uma região, que é a minha. Não tendo nascido em Aveiro mas estando aqui há muito mais tempo do que no sítio onde nasci, acho que, num certo sentido positivo do termo, Aveiro já me adoptou. Esta é a minha terra e a minha região, e no quadro das minhas limitações estarei sempre disponível para o que for preciso.
Há dois anos na Rota da Luz… nestes dois anos muita coisa mudou…
Dando valor a toda a gente que esteve na Região de Turismo e a todo o trabalho que fizeram, para o bem e para o mal, quando para aqui viemos tomámos a opção de mudar o paradigma da intervenção, ou seja, as regiões de turismo estiveram sempre muito vocacionadas para o saber receber e a verdade é que, no campo do que é hoje o exercício profissional do turismo, com mediadores e operadores muito fortes, tínhamos de trabalhar junto deles para fazer vir mais gente aqui. E isso tinha como complemento o crescimento no sector do turismo. E foi isso que fizemos, primeiro actuando a montante, falando com os grandes mediadores e mostrando-lhes que temos uma região que é única, diferente de muitos dos pontos turísticos portugueses e da Europa. A jusante o que tivemos de fazer, e é um trabalho que tem de continuar, que é o da qualificação. Tivemos de nos organizar. A União Europeia tem no associativismo um os principais indicadores de desenvolvimento do país… por isso fomos falar com os hotéis, com a s agências de viagens, com vários intervenientes, e mostrar-lhes as vantagens do associativismo. Mostrar-lhes as vantagens de dialogar com um interlocutor e não com todos do mesmo sector. Foi um exemplo fantástico e a isso se deve, talvez, o maior crescimento da região. Os hoteleiros, vencendo as suas contradições criaram complementaridades de trabalho entre eles, que tem catapultado muito esta região no panorama externo. Estamos agora a fazer o mesmo trabalho com os operadores de animação. Tudo isto para que haja uma rede de contactos. Em suma, fomentámos o associativismo e criámos redes de trabalho.
Acha que esse paradigma de que falou deu outra visibilidade à Região de Turismo da Rota da Luz?
Admito que deu pelas indicações que nos vão chegando. O facto de em dois anos consecutivos sermos nomeados para a «Melhor Região de Turismo de Portugal» é uma coisa que nos trás algum orgulho pelo trabalho feito. Também sabemos, e isto não é um lugar comum, que as responsabilidades vão aumentando.
Como assim?
Olhe, por exemplo no alojamento. Sabemos que quem vinha à cidade de Aveiro – que tem cerca de 80% dos visitantes que depois procuramos dimensionar por toda a região – chegava e via que tinha uma viagem de barco com uma duração de uma hora e meia, chegava às quatro da tarde ainda tinham tempo para ir dormir a outro lado. Teríamos de fazer algo mais que o obrigasse a chegar às 18 horas e perguntassem pelo guia de alojamentos. Foi assim que lançámos o autocarro panorâmico que complementava as viagens de barco. Foi assim que começámos a ver o turista sair do autocarro ou do barco moliceiro e vir procurar o guia de alojamento para aqui ficar. Foi criando motivos adicionais de estadia que fomentámos a apetência pela estadia mais prolongada.
A visibilidade externa institucional foi visível pelos indicadores que nos têm chegado.
Sob o ponto de vista interno foram um conjunto de programas de animação e promoção que fizeram com que as coisas fossem mais visíveis.
O novo quadro das regiões…
Fazendo um parêntesis inicial, direi que todos nós concordávamos que havia necessidade de uma alteração profunda na dimensão e do trabalho das regiões de turismo, justamente porque muitas delas ainda estavam sob a forma dos paradigmas de intervenção antigos, limitados por uma legislação criada há duas dezenas de anos, profundamente desactualizada, numa actividade que, sendo recente, é muito activa. Carecia de novas ideias. Por outro lado nem todo o território do país estava regionalizado sob o ponto de vista do turismo. Havia alterações grandes a executar. O que eu pensei foi que o modelo para fazer essas alterações fosse um modelo que traduzisse uma dimensão estratégica para o país. Que turismo nós vamos pretender? E a partir do momento em que se definisse uma dimensão estratégica, então íamos fazer as alterações à Regiões de Turismo. Faríamos enquanto trabalhávamos… Esta alteração surgiu na pior altura porque estamos a entrar no Verão. Prejudicou-nos porque já não temos capacidade financeira para actuar, uma vez que foi bloqueada a partir do momento em que deixou de ser enviada no primeiro trimestre, como era sempre, para gerir o ano. Deixámos de poder gerir bem, deixámos de poder fazer a promoção que estávamos a fazer para este ano. Eu creio que os resultados se vão fazer sentir agora, durante este ano, apresentado algum lado negativo que tem a ver com a inibição completa das regiões de turismo poderem continuar da forma como estavam a fazer o seu trabalho.
Nos próximos anos regiões que ganharam mais dimensão, mais massa crítica, poderão ter efeitos positivos.
Isso não revela alguma falta de tacto político pela inoportunidade?
As questões dos timmings, da articulação entre os vários agentes, da participação maior são coisas que não aconteceram e deviam ter acontecido. Era exigível que houvesse um momento para as coisas acontecerem e não fosse em cima da preparação da recepção aos turistas. Era necessário que tivesse uma dimensão de participação maior do que de facto acabou por ter. E era sobretudo necessário que houvesse uma clareza de estratégias para depois redefinir as regiões de turismo. Repito: assim, o momento não foi bom e o modo de o fazer também não foi. Esperemos que nos próximos anos, já com elas constituídas possa vir a ser positivo no futuro.
Mas a Rota da Luz sai beneficiada ou prejudicada?
Vamos ver. Ainda estamos muito no início para ter algum prognóstico. A verdade é que eu acho que esta nova região que vai surgir, tem de ter, pelo menos, e vai ter com certeza, uma dimensão policêntrica dos produtos de turismo. A região de Aveiro, a sua Ria e os valores que lhe estão associados, a Região do Dão Lafões, a de Coimbra, a de Castelo Branco, são fortíssimas do ponto de vista de dimensão turística. Este lado policêntrico, creio, tem uns estatutos que se estão a construir no momento. Isso irá estar garantido e de alguma forma creio que temos uma capacidade muito forte de participar em tudo aquilo que é a nova região. E temos capacidade forte não só pelos produtos, mas sobretudo porque já temos instalado, nos últimos dois anos, uma massa crítica devidamente organizada, constituída por redes de trabalho entre os vários operadores, constituída por várias associações que têm uma boa capacidade de intervenção. Nós temos o produto e a massa crítica, temos tudo para que no novo quadro ou em qualquer outro que entretanto possa surgir, tenhamos uma participação muito eficaz e muito activa.
Ficaria satisfeito se a sede da nova Região ficasse em Aveiro…
Não coloco muito a questão de onde é a sede nem de quem é o Presidente… Todas as dimensões da construção de programas políticos, de execução de tarefas políticas, são construções colectivas. Temos de ter um conjunto de agentes que intervêm no terreno que têm muita capacidade junto dos poderes públicos e intervir de alguma maneira fazer exigências de equilíbrios da intervenção política.
Seja onde for a sede e seja quem for o presidente e a direcção, temos uma capacidade de intervenção muito forte.