Ao cidadão comum, por mais deficiências olfactivas que tenha, não escapa um ligeiro cheiro, embora que à distância, de um certo calor produzido pelo alcatrão pronto a ser utilizado na repavimentação das vias esburacadas que, como todos constatamos diariamente, são mais que muitas.
De facto, quem se vê quotidianamente obrigado a transitar pelas nossas estradas, vias de comunicação municipais ou municipalizadas, em que se incluem as avenidas, ruas e travessas das nossas cidades, confronta-se com uma aflição latente: «quando é que o meu carro parte uma suspensão?». É que os buracos são tantos e de tal dimensão que nalguns casos mais parece crateras de um superfície lunar...e nem as limitações de velocidade são suficientes para que os veículos ultrapassem incólumes semelhantes ratoeiras.
Mas...e há sempre um mas...a esperança de que as coisas mudem começa a vislumbrar-se «ao fundo do túnel», como soi dizer-se: é que estamos a chegar a 2009!!!
Mas o que é que 2009 tem a ver com o assunto, perguntará o leitor mais desatento...
É fácil, intuitivo e cíclico: 2009 é ano de eleições e por esse facto, os depósitos de alcatrão começam a ser preparados para a sua utilização nos meses mais próximos. É por isso que já nos começa a chegar um cheirinho a alcatrão...
Lamentável é que durante três anos, a inércia acompanhada das desculpas do costume, torne infrutíferas as reclamações e reivindicações das populações que só conseguem ver as estradas “remendadas” de quatro em quatro anos.
Mas a desgraça do cidadão não se confina a estes pormenores de mais ou menos alcatrão. A verdade é que a situação actual da nossa sociedade faz-nos lembrar, embora que noutro sentido, aquele dito infeliz de um responsável político que há uns anos atrás, se bem se lembram, classificou a juventude de “rasca”.
“Rasca” é uma palavra demasiado plebeia e pesada para classificar seja o que for, mas a verdade é que estamos a ver diariamente gerações “à rasca”: estão “à rasca” os trabalhadores que vivem o dilema da perda inopinada do seu posto de trabalho; estão “à rasca” os pensionistas – com excepção daqueles que usufruem reformas milionárias, muitas vezes com carreiras contributivas para a Segurança Social que ficam a quilómetros de distância de muitos que “deram o coiro” por 35 ou 40 anos, e até mais – que são forçados a fazer sessões de ginásio, mas de ginástica orçamental, para que os seus míseros euros cheguem para pagar à Farmácia; estão “à rasca” os polícias, que não têem meios para combater a crescente onda de criminalidade; estão “à rasca” os professores que, para além do espectro de desemprego vivem também a fobia de serem agredidos por alunos ou encarregados de educação mais exaltados; estão “à rasca” os casais que adquiriram casa própria e cujos aumentos das amortizações vão subindo desordenadamente fazendo com que muitos percam as suas casas ou se vejam envolvidos em questões judiciais por esse motivo...
Valerá a pena desafiar um rosário tão longo de gente que está “à rasca”? É que essa gente é tanta e de todos os segmentos etários que mais apetece dizer que temos «não uma juventude rasca – que não temos – mas gerações à rasca».
Arménio Bajouca
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